Saúde




Pesquisa discute a influência da mídia na medicalização

 

A primeira vez que sentiu desespero, falta de ar e um forte medo, Fernando Martins, 20 anos, estava em casa, em frente ao computador, procurando opções de fones de ouvido para comprar: “De repente, tudo ficou branco, comecei a suar e a sentir muita dor no peito”.  Acompanhado pela família, Martins seguiu para a emergência de um hospital de Florianópolis. Ao ser atendido, foram feitos exames que descartaram a possibilidade de paradas cardíaca e respiratória e acidente vascular cerebral. “Foi aí que um dos médicos me chamou e disse que ele e os colegas achavam que eu estava com um quadro de síndrome do pânico”. O paciente recebeu alta, orientações de procurar um psiquiatra e também levou consigo uma receita de cloridrato de paroxetina, um antidepressivo inibidor da recaptação de serotonina, vendido somente com prescrição médica.

Essa é uma cena comum no ambiente médico. Todos os dias, pessoas entram em consultórios, emergências e hospitais e são diagnosticadas com os mais diversos tipos de transtornos psiquiátricos. Muitas vezes, no entanto, o diagnóstico precoce esconde um acontecimento normal da condição humana. Esse processo é conhecido como medicalização da vida. Se uma pessoa está triste, diz-se que está deprimida; se está excessivamente alegre, maníaca; se tem vergonha de falar em público, fobia social. Sandra Caponi, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadora na área de Filosofia e História da Medicina, explica que a medicalização é o modo de encaixar o sofrimento psíquico na lógica da consulta médica clássica: “É uma espécie de círculo do qual é difícil sair. O médico integra à sua rotina problemas de saúde mental como depressão e ansiedade e responde do mesmo modo que responderia diante de outra patologia qualquer, como gastrenterites, por exemplo,”.

No artigo “Depressão em pauta: um estudo sobre o discurso da mídia no processo de medicalização da vida”, Sandra Caponi e Giovana Bacilieri, médica doutoranda em Saúde Coletiva, na UFSC, discutem a medicalização da vida, o papel decisivo que a mídia desempenha na vida social e no cotidiano das pessoas e como isso pode interferir em diagnósticos de casos de depressão. O grave da medicalização é que comportamentos outrora considerados rotineiros passam a ser examinados como indesejados e classificados como problemas médicos. Dessa maneira, os quadros clínicos tornam-se passíveis de controle por meio de medicação, dando início ao processo conhecido como medicamentalização. “A lógica da biomedicina é achar uma lesão orgânica e um medicamento que possa agir diretamente sobre essa lesão. Além disso, os pacientes também acham que esse é o caminho lógico e necessário e demandam ao médico essa receita”, explica Sandra.


A necessidade de uniformizar e rotular as condições e comportamentos humanos faz com que mais pessoas sejam diagnosticadas e medicadas: “Temos, como consequência, menos conversas sobre o que tem causado os sofrimentos humanos e muito mais prescrições de pílulas que prometem o término desses sofrimentos, sem a necessidade de mudanças de vida e condições sociais”, completa Giovana. Somente no Brasil, na década de 90, houve um aumento considerável, de 0,1% para 15,5%, no orçamento público brasileiro dedicado a medicações psicotrópicas - que provocam alterações de comportamento, humor e cognição e, portanto, necessitam de auto-administração. Em contrapartida, o orçamento para os hospitais psiquiátricos caia, à época, de 35,5% a 49,3%. A depressão, por exemplo, será, ainda mais, um problema recorrente na saúde pública brasileira já que a Organização Mundial de Saúde estima que em 2020 o transtorno psiquiátrico vá figurar como a principal causa de incapacitação nos países em desenvolvimento – crescimento considerável, já que nos anos 90 era apontado como a quarta causa de incapacitação.

 

O papel dos meios

 

Um dos fatores da popularização da medicalização é a mídia. Há um fenômeno interessante presente nos diferentes veículos de comunicação: os “check lists” que promovem o autodiagnóstico. Respondendo a algumas poucas perguntas, é possível saber se o leitor/espectador tem propensão a doenças de fundo psiquiátrico. “Além desses testes, temos cada vez mais a divulgação de relatos de vida de pessoas, famosas ou não, que dizem ter passado por momentos de depressão. Pode ocorrer aqui um processo de identificação a partir de tais relatos alheios, ampliando ainda mais a prática do autodiagnóstico”, explica Giovana.

 

De acordo com o artigo das pesquisadoras, o processo de identificação está presente na mídia através de abordagens como a matéria apresentada pela Veja online em 1999, com personalidades públicas que possivelmente apresentavam um quadro depressivo. Tal identificação é feita tanto por histórias de vida semelhantes quanto por histórias de vida desejáveis. O processo de reconhecimento pode contribuir para a ampliação de diagnósticos: o leitor se identifica com os sintomas e histórias de vida e se autodiagnostica como portador do mesmo transtorno. Para Fernando Martins - nosso personagem do começo desta reportagem -, o tratamento dado pela mídia o assustou: “Via casos na televisão de pessoas que se diziam depressivas e imaginava que aquilo poderia estar acontecendo comigo também, mas felizmente, meu caso não era tão grave”, explica.

 

Após consultar dois psiquiatras, Martins foi diagnosticado com transtorno de ansiedade. O remédio antes indicado pelos clínicos gerais que o atenderam foi suspenso. Atualmente, continua fazendo terapia e, apenas em casos de crise, faz uso de medicação - mais branda que a anteriormente indicada. Para Sandra Caponi, existem muitos casos de pessoas que realmente precisam de tratamento, mas é necessário estar atento à linha tênue e imprecisa entre a tristeza normal e a patologia psiquiátrica: “É desejável que cada um de nós - e cada profissional da saúde - possa ser capaz de aceitar que sempre existe alguma margem de sofrimento, que sofrer faz parte da condição humana e que muitos de nós podemos precisar de auxílios terapêuticos para entender o motivo que nos levou a esse estado”.

 

 


Pesquisador fala sobre uso medicinal da Cannabis

 

A Agência Ciência em Pauta entrevistou o doutorando Rafael Bitencourt que, sob a orientação do professor Reinaldo Takahashi, tem desenvolvido pesquisas para o uso do canabidiol no tratamento de memórias aversivas. Este elemento é extraído da Cannabis sativa, planta que dá origem à maconha. Segundo a pesquisa de Bitencourt, é possível usar a substância para ajudar na superação de traumas e medos.

Bitencourt é formado em Farmácia pela Universidade do Extemo Sul Catarinense e fez seu mestrado em farmacologia na UFSC, em 2008. No momento está realizando seu doutorado também aqui na Universidade.

Confira, a seguir, o podcast da entrevista.

 

 

Pesquisa analisa afastamento do trabalho por depressão

 

O número de pessoas que se afastam do ambiente de trabalho em decorrência de problemas de saúde mental é crescente. Estatísticas do Ministério da Previdência Social revelam uma maior quantidade de pagamentos de auxílio-doença para os trabalhadores. Em 2010, dos 100 transtornos classificados como mentais e de comportamento, só os episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente representaram 40,7% dos benefícios concedidos.

 

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 50 pessoas, entre servidores técnico-administrativos e professores, se afastaram do trabalho devido à depressão entre julho e dezembro de 2009. Em 2010, a psicóloga de Recursos Humanos do Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (SESC/SC), Gabriela Cavalheiro, analisou alguns desses casos e fez sua dissertação sobre os sentidos que os trabalhadores afastados atribuem ao seu ofício. A psicóloga avaliou 50 prontuários, sendo que, desse total, 36 foram utilizados para o estudo. Por fim, oito participantes foram considerados aptos e/ou aceitaram participar de uma entrevista individual.

 

 


Mal de chagas: as consequências do surto

 

Especial produzido pela equipe do Ciência em Pauta relembra o surto de Mal de Chagas que ocorreu em Santa Catarina há seis anos. As pessoas infectadas à época continuam sendo monitoradas pelo Laboratório de Protozoologia da UFSC e 11 pessoas que ainda apresentam sinais da doença serão submetidas a um novo protocolo de acompanhamento. Confira

 

Pesquisador alerta sobre cuidado com os cães

Florianópolis precisa de uma vigilância e de uma legislação mais eficientes no que diz respeito ao transporte de animais domésticos pela Ilha. É o que defende Mário Steindel, membro do Laboratório de Protozoologia há 27 anos.  Os casos de leishmaniose canina na região do Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição, são o motivo que instigou o pesquisador a fazer o alerta. “Não dá para andar com um cachorro pra cima e pra baixo. As pessoas não fazem isso por maldade, é por costume e desconhecimento, mas a colaboração de todos é importante com relação ao controle da doença. Quando se tem um animal, deve-se dar a ele a devida proteção e cuidado”, explica Steindel.