Políticas


Governo promove debates sobre inovação no estado

 

Implantar um modelo de desenvolvimento econômico que garanta qualidade de vida aos catarinenses e agregar valor à economia foram alguns dos desafios apresentados pela secretária-adjunta de Desenvolvimento Econômico Sustentável Lúcia Dellagnelo durante a primeira etapa da IV Conferência Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, em Florianópolis. Com coordenação da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), o evento, que aconteceu na última sexta-feira (18), reuniu autoridades governamentais, empresários, alunos e professores de instituições de ensino superior para discutir e estabelecer linhas prioritárias de atuação do Estado no apoio à pesquisa científica em Santa Catarina. Sergio Gargioni, presidente da FAPESC, que abriu o encontro, ressaltou a necessidade de aumentar a produtividade nas inovações e a importância de discutir abertamente o papel da universidade, empresa e sociedade nessa prática.


Para a secretária-adjunta, a inovação deve ser pensada como fundamental e estratégica em Santa Catarina, prevendo não só o crescimento econômico, mas também a sustentabilidade – em um conceito amplo, que vá além da questão ambiental. Um dos projetos do governo para certificar este processo é o INOVAÇÃO@SC que pretende estruturar e gerenciar a Política de Inovação e Tecnologia do Estado de Santa Catarina. O intuito do programa é coordenar um sistema de informações estratégicas, com ações estruturantes em prol da inovação tecnológica nas empresas catarinenses e que articule e crie sinergia entre governo, universidade, empresa e organizações da sociedade civil.


A experiência de Minas Gerais também foi apresentada na Conferência. Evaldo Vilela, secretário-adjunto de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, explicou como funciona o Sistema Mineiro de Inovação (SIMI) e apontou, entre as novidades do programa, uma rede social de inovação que conecta empresários e estudantes de pós-graduação. Implantada em 2006, a iniciativa já congrega mais de seis mil usuários. Após as exposições, a conferência prosseguiu com a divisão dos participantes em três grupos, para que pudessem discutir os eixos temáticos propostos - inovação na gestão pública; legislação e inovação; e articulação universidade, empresa e sociedade”- e apresentar conclusões preliminares.

 

Esta é a primeira vez que o evento conta com três etapas de discussão (sediadas em Florianópolis, Joinville e Criciúma). O próximo encontro acontecerá entre os dias 11 e 13 de junho, durante a XII Conferência da Associação Nacional de Pesquisa, em Joinville. Com as etapas concluídas, o objetivo, de acordo com o diretor de Pesquisa e Inovação da Fapesc Mario Angelo Vidor, é construir um documento a ser encaminhado ao governador para atualizar a política de inovação no estado.

 

Entrevista Paraná

Carlos Alberto Justo da Silva, popularmente conhecido como Paraná, tem formação em Medicina pela UFSC, mestrado também em Medicina pela Federal do Rio de Janeiro  e doutorado em Técnicas Operatórias e Cirurgia Experimental pela Universidade Federal de São Paulo  (Unifesp). Foi vice-reitor da UFSC durante a última gestão, diretor do Hospital Universitário (HU) e diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS). A chapa UFSC Sem Fronteiras tem como vice a professora Vera Bazzo, graduada em Letras Portugês e Inglês, com mestrado em Letras e doutorado em Educação pela UFRGS.




Como o senhor avalia o desempenho da UFSC na área científica nos últimos 4 anos?

O desempenho das pesquisas na UFSC pode ser medido através da qualidade dos cursos de pós-graduação que nós temos. Nós somos uma das universidades que mais aumentaram seus conceitos de pós-graduação nos últimos três anos e grande parte dessa conquista se deve às pesquisas desenvolvidas. Tem se falado muito sobre uma diminuição no número de pesquisas publicadas pela UFSC. Isso ocorreu graças à normatização dos dados, sendo que agora pesquisas interdisciplinares, que antes eram consideradas pesquisas diferentes, fazem parte da mesma publicação. Outra coisa que influencia é o aumento da qualidade das pesquisas. O nosso índice de impacto das publicações tem aumentado bastante.


O senhor participou ativamente da atual gestão que comandou a UFSC nos últimos 4 anos, como vice-reitor. O que precisa ser feito para manter a qualidade das pesquisas na UFSC?

Nós precisamos, cada vez mais, ter condições de ser competitivos nos chamados financiamentos setoriais. A UFSC precisa ter condições para ter grupos que possam desenvolver os projetos que a tornem competitiva e promovam o aumento de recursos setoriais. Temos a meta de continuar dando condições de infraestrutura para os pesquisadores. Essa infraestrutura vai desde a facilidade para que eles tenham seus laboratórios até a capacidade operacional desses laboratórios, que atualmente está um pouco estrangulada.

Com o crescimento da universidade e das pesquisas, a gente vem enfrentando uma dificuldade de fornecimento de logística. Na nossa gestão, a gente quer mudar essa situação, dando condições para todos os pesquisadores trabalharem com eficiência. Outro ponto importante é trabalhar a intersetorialidade, para que possamos trabalhar com pesquisas em várias áreas. Cada vez mais, a UFSC tem que trabalhar com pesquisas entre as várias áreas do conhecimento.

Que aspectos precisam ser melhorados em relação à gestão que se encerra agora em 2012?

Vamos promover mais parcerias entre a UFSC e entidades que têm necessidade do conhecimento produzido aqui. Vamos tentar nos aproximar cada vez mais do setor público, Petrobras e outras grandes empresas brasileiras, na área da saúde, na área das ciências sociais aplicadas e também das empresas de maneira geral. Precisamos ajudar a resolver, através da pesquisa, problemas de desigualdade do nosso país. As pesquisas da UFSC precisam estar voltadas também para a melhoria da sociedade com um todo.

Cada vez mais, surgem programas do Governo Federal para proporcionar intercâmbios de alunos brasileiros para outros países durante a graduação. O que pode ser feito em relação ao intercâmbio de alunos para desenvolver a pesquisa? E de professores pesquisadores?

Estamos nos propondo a criar disciplinas em língua estrangeira em vários cursos. É uma forma de preparar nossos alunos para intercâmbios, para não haver esse problema da barreira com a língua. Temos que fazer uma campanha para incentivar e preparar nossos alunos para intercâmbios, que é uma forma de aprendizado incrível. Queremos também que alunos de instituições do exterior possam vir para a UFSC e ter o nosso ensino de qualidade. Tem de ter uma campanha. Muitas vezes o aluno que vai para o intercâmbio acaba perdendo um semestre, porque não consegue validar as disciplinas. A gente precisa de mecanismos e de legislação interna. Há um trabalho grande pela frente.


O que precisa ser feito para que a UFSC possa ser comparada com as melhores universidades do Brasil, como a USP e Unicamp, em termos de pesquisa?

Na verdade, a UFSC já é uma das grandes universidades do Brasil em termos de pesquisas. Nós queremos transformá-la na melhor, mas ainda temos que fazer algumas coisas. Temos que dar condições estruturais para os professores (pesquisadores), como investir em laboratórios, publicações, professores de qualidade e bolsas para jovens pesquisadores.

 

Entrevista Kinoshita

 

Com duas graduações, uma em direito e outra em história, especializações que vão desde direitos humanos até o mercosul e união europeia, e doutorado em Introdução Ao Direito Comunitário Europeu e Proble, Fernando Kinoshita é atual coordenador de pesquisa do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ). Último candidato a se inscrever, tem como vice o professor Eduardo A. Temponi Lebre que possui doutorado em Direito pela UFSC.






A UFSC é reconhecida como uma das melhores universidades do Brasil em termos de pesquisas científicas. Na sua opinião, o que é possível para que a UFSC desenvolva ainda mais essa área ?

Primeiramente, temos que pensar nos recursos financeiros. Temos que pensar em modos para diversificar as fontes de financiamentos da pesquisa na UFSC. A grande parte dos recursos financeiros destinados à pesquisa na UFSC é de origem pública, fundamentalmente do Governo Federal. Nós temos que trabalhar esse pilar público, estimulando as fundações de pesquisa estaduais, mas também temos que fazer esforço para estimular parcerias com os municípios, para que os municípios possam refletir sobre a possibilidade de se criar uma fundação de pesquisa em âmbito municipal.

Precisamos, também, identificar e criar oportunidades de captação de recursos, sejam eles financeiros ou não, junto ao setor privado, junto à sociedade civil. E quando eu digo setor privado, não me refiro somente às grandes empresas, mas às micro, pequenas e médias empresas também. Assim, poderemos alavancar a nossa produção científica de modo cooperativo, com o conhecimento produzido aqui na UFSC.



O que ainda falta para que a UFSC se destaque ainda mais no cenário de pesquisas? Em que aspectos a universidade deixa a desejar?

Eu acho que a UFSC ainda sente falta de uma interconexão entre os eixos tecnológicos. As diferentes áreas do conhecimento precisam trabalhar juntas, precisam conversar. É necessário haver uma aproximação entre as pesquisas. Assim, as diferentes formas de ciência estarão trabalhando para o bem maior da população, para o desenvolvimento da sociedade, e não apenas para uma determinada área. É fundamental cada forma de conhecimento crescer, mas contribuir para que a sociedade cresça junto.


O senhor costuma dizer que o Brasil é uma nação internacionalizada. De que forma a sua gestão pretende investir na troca de conhecimentos, através de intercâmbios?

Hoje, o Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário internacional. Muito disso se dá por causa do conhecimento produzido aqui, nas nossas universidades. È preciso haver essa inserção internacional, de dupla via, das oportunidades de intercâmbios, mas em caráter de missão. Isso quer dizer que os estudantes, os pesquisadores irão para fora, mas irão para construir, para desenvolver conhecimento. Essa cooperação internacional é uma forma de captação de recursos financeiros e de conhecimento. Essa cooperação internacional pode trazer inúmeros benefícios para o ensino, mas tem de haver essa interdisciplinaridade, para que os benefícios sejam sentidos por todos.

Em termos de estrutura para pesquisadores, como o senhor define a atual situação da UFSC?

Com certeza, a UFSC melhorou muito nas últimas gestões em termos de estrutura para os educadores no geral. Mas creio que infraestrutura é algo essencial e que tem que estar sempre melhorando.  As melhorias precisam ser bem estruturadas também, para que não aconteça de alguns núcleos de pesquisa serem beneficiados em relação a outros. A pesquisa é universal, é um bem da universidade como um todo, e não para determinados setores.

 

Entrevista Roselane

 

Roselane Neckel iniciou sua trajetória na UFSC ainda cedo, quando cursou o Ensino Médio no Colégio de Aplicação. Licenciada em História pela UFSC e com mestrado e doutorado em História do Brasil pela PUC/SP, Roselane é professora do Departamento de História desde 1996, com ênfase no ensino e na pesquisa relacionada a História da Educação e a linha de pesquisa do Programa de Pós-graduação em História- Relações de Poder e Subjetividades. Foi eleita vice-diretora do CFH em 2004 e diretora em 2008.




Qual é a importância da pesquisa para o crescimento da universidade e de que forma sua gestão investirá em pesquisas na UFSC?


A universidade pública tem um grande referencial, que é exatamente a possibilidade de dar garantias para que os professores atuem nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. Porque esse tripé, que normalmente é colocado como um tripé, na verdade é um conjunto de relações que se estabelecem o tempo inteiro. A pesquisa é uma área essencial pela produção de conhecimento no mundo que a gente vive, nas mais diferentes áreas. Desde a área técnica, marcada por áreas de conhecimento como, por exemplo, o Centro Tecnológico na UFSC, que é um grande representante, ou o Centro de Ciências Biológicas, que trabalha com o desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao estudo de células ou do desenvolvimento de exames, no caso da Farmácia, ou o desenvolvimento de produtos que tenham um retorno social muito forte e isso significa o esforço de vários pesquisadores, que ao fazer a pesquisa, desenvolvem também sua capacidade de ser professor. Porque a partir do momento que a interrelação entre a atividade de pesquisa se estabelece na relação de ensino, isso é a base da universidade. Ou seja, a pesquisa por si só é a pesquisa por si só e garante resultados, mas ela se torna muito mais fortalecida quando esse resultado é colocado no espaço do ensino e quando isso gera também uma atividade de extensão.
Quando se produz tecnologia social, por exemplo, um conhecimento na área de humanas ou as mais variadas pesquisas na área de educação, e esse conhecimento – que é muito importante para a sociedade - fica apenas dentro da universidade, isso representa os limites na atuação da universidade e no impacto social do que a universidade está fazendo. A repercussão e a importância da pesquisa é muito grande, porque ela nos torna uma universidade com condições de produção do conhecimento. E produzir conhecimento nos dá a garantia de ser uma universidade com base nessas três áreas de atuação: ensino, pesquisa e extensão, diferente de outras universidades que são privadas, por exemplo, onde há uma mera reprodução do conhecimento já produzido, onde o incentivo à atividade de pesquisa é parcial. Na universidade pública, essa relação é muito forte. Então, ao mesmo tempo que os alunos estão em formação, eles estão aprendendo e produzindo conhecimento. E isso para nós é muito importante e essencial. O ato de envolver o aluno na produção de conhecimento e pensar na pesquisa como a possibilidade de ir além - além daquilo que já está estabelecido, em todas as áreas, tanto nas áreas tecnológicas e como nas áreas das Ciências Humanas.

Qual é a nossa grande contribuição para essa área?

Primeiro: a Pró-Reitoria de Pesquisa. A criação de um comitê gestor que dê apoio à elaboração de projetos para fomentar a capitação de recursos na área da pesquisa, porque nós precisamos de recursos. Existem vários órgãos que nos dão fomento, que nos dão esses recursos, por exemplo o FINEP, a Petrobras e empresas. Temos como obrigação institucional estabelecer apoio. Muitas instituições, hoje, dependem não necessariamente dos recursos que vêm do orçamento do MEC, mas dependem principalmente do esforço e da capitalização que os pesquisadores da instituição fazem. Eles se reúnem em grupos, elaboram projetos e dessa fora conseguem captar recursos. O comprometimento que a UFSC tem que ter em relação a esses pesquisadores é dar condições de infraestrutura administrativa para conseguir elaborar, por exemplo, os projetos dos prédios, porque isso não é contemplado pelos órgãos de fomento. Alguns sim, mas outros não.  Cabe à UFSC, então, dar condições para a elaboração dos projetos dos prédios necessários ao desenvolvimento de laboratórios. Uma outra questão séria é de pessoas. Nós podemos desenvolver um laboratório multiusuário de computação. Mas nós vamos precisar de pessoas. O projeto vai financiar as máquinas e os equipamento e, às vezes, vem bolsas junto, mas as bolsas são provisórias. Para você estabelecer uma estrutura de pesquisa com base consistente, você precisa ter uma equipe técnica e a UFSC tem que dar as garantias de ter uma equipe técnica que toque esse laboratório. Porque uma coisa é ter uma equipe de bolsistas e outra coisa é ter uma equipe que tenha relação com a instituição. O que nós estamos propondo é nos anteciparmos aos órgãos de fomento, essa é uma questão importantíssima. É ter o apoio institucional para a elaboração de projetos institucionais que busquem a maior captação de recursos possível porque isso fortalece a área de pesquisa e o esforço dos pesquisadores na UFSC, que hoje é muito frágil. E um exemplo disso é o CT-INFRA/FINEP, que são recursos que nós temos direito enquanto instituição -  R$ 18 milhões pelo número de doutores que temos -  e, hoje, nós temos uma grande captação de mais de R$ 12 milhões, mas temos projetos que já foram contemplados em 2007 e que até o momento não foram construídos, projetos de prédios.  Isso mostra a dificuldade de política institucional em relação ao apoio aos pesquisadores e à própria gestão administrativa que não é organizada. Mais uma vez a gente volta ao foco da reorganização da gestão administrativa para dar apoio aos nossos pesquisadores e para mostrar a importância que nós damos à pesquisa.



Na sua opinião qual é a área que necessita de mais investimentos? É na infraestrutura, bolsa para estudantes, incentivo para professores e pesquisadores?

Neste momento, em caráter de urgência, nós precisamos de apoio para os pesquisadores, para – a partir da capacidade já acumulada  que eles têm como pesquisadores – atender, com a infraestrutura necessária, os projetos que eles já desenvolveram, além da garantia de mais bolsas para os estudantes. Exatamente para a pesquisa não ficar restrita a um determinado espaço e um determinado lugar, nós precisamos ter a participação e quanto mais pessoas participarem, melhor. Então é importante tanto a questão da infraestrutura quanto das bolsas. Essas duas áreas retornam no apoio ao pesquisador. Se tivermos um boa infraestrutura e um bom número de bolsas, fica mais fácil para os pesquisadores conseguirem desenvolver o seu trabalho.

Entre parcerias com empresas públicas e empresas privadas, qual que seria a prioridade?

Depende muito das características de cada área de conhecimento, depende muito das relações que os pesquisadores estabelecem com os diferentes setores. Não é uma questão de priorizar X ou Y, mas é uma questão de entender que em determinadas áreas a relação maior é com o setor produtivo. O problema é quando uma instituição define como prioridade zero apenas a relação com o setor produtivo. Existe a abertura de possibilidade de ter uma relação com o setor produtivo, que é na maioria das vezes com empresas privadas, mas especialmente com empresas públicas. É isso que nós temos feito nos últimos anos: garantir a ampliação da possibilidade de relação com o setor público. Quando nós criamos um curso de Geologia, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas - e  nós temos clareza que apenas com os recursos públicos do governo nós não vamos dar conta de criar os laboratórios necessários para a boa formação dos nossos estudantes -  qual é a reação que um dirigente ou um gestor tem que ter ? Ir em busca de fomentos, ir em busca de recursos. O que eu acabei tendo que justificar internamente no Centro de Filosofia e Ciências Humanas e para várias pessoas. “Mas ,ah Roselane, você vai fazer uma relação com empresas privadas, no caso da Petrobras, público-privada?”. A minha resposta é que a maior preocupação é dar a melhor formação para os nossos jovens, para os nossos estudantes.  A escolha do que esses jovens vão fazer vai ser deles. Vai depender da formação que nós vamos dar. Então, deveria fechar a porta para uma parceria público-privada, no sentido de estabelecer um contato ou uma relação com a empresa, deixando muito claro a propriedade intelectual e o  retorno para a UFSC dessa atividade e que essa relação deva primar pelo foco institucional, pelo respeito da instituição e os resultados devem retornar para a UFSC ? Mas é claro que a empresa não vai aplicar se ela não tiver o retorno e isso precisa ficar muito claro. Mas o que importa no fim de tudo isso é que nós tenhamos laboratórios bem equipados e que tenhamos bibliotecas com muitos livros, porque tudo isso possibilita melhores condições de informação. Não é uma escolha ou é isso ou aquilo, mas é estabelecer claramente o que é mais importante. E, na nossa avaliação, é a boa formação das pessoas, uma excelente formação das pessoas que pode ser garantida das mais diferentes formas, mas sem abrir mão da autonomia da universidade na gestão do conhecimento e da formação. Autonomia na gestão da produção do conhecimento e autonomia na gestão da formação das pessoas. Foi isso que eu ouvi da Petrobras quando eu fui lá em 2009. Primeira pergunta que fiz foi se eles queriam interferir na formação dos nossos jovens. E eles disseram não e só aí podemos começar a trabalhar.

Qual é a importância entre o intercâmbio de pesquisadores e estudantes? E de que forma essa área pode ser desenvolvida na UFSC?

Nós temos pensado na criação de laboratório multiusuários, interdisciplinares e multidisciplinares. Porque essa é uma possibilidade de nós criarmos uma rede de pesquisadores. Hoje muitas pesquisas são realizadas em espaços separados tendo o mesmo problema e a mesma questão a ser resolvida. Então ampliar a comunicação é a primeira questão, ampliar a comunicação entre os vários pesquisadores. Criar espaços multiusuários onde esses pesquisadores possam se encontrar e possam desenvolver suas pesquisas. E o intercâmbio entre esses pesquisadores, entre os bolsistas desses pesquisadores e aqueles envolvidos na pesquisa com os outros pesquisadores, ou a criação de fóruns. Uma das questões importantes que nós temos percebido é a necessidade de espaço de diálogo entre os pesquisadores dentro da UFSC. Eles se encontram em eventos, mas não se encontram internamente e muitas vezes nós não sabemos o que o outro está produzindo, muitas vezes, no mesmo prédio! Precisamos desenvolver uma política de aproximação em relação aos pesquisadores, a partir da comunicação interna e fortalecimento dessa comunicação, mas só a comunicação não garante encontro. Encontros são possíveis a partir da organização de eventos que nos envolvem. E isso é uma postura que a Pró-Reitoria de Pesquisa pode assumir. Estabelecer as áreas do CNPq não apenas nos momentos que aparecem nos editais. Porque aí a gente sabe que se reúnem os pesquisadores, se chama todo mundo, todo mundo se conhece, mas ninguém trabalha junto. Além desses momentos em que aparecem os editais de fomento, vamos fazer isso de forma cotidiana, semestralmente, para que a gente possa saber o que o outro está fazendo e de que maneira podemos nos unir para captar recursos institucionalmente e não individualmente. E isso é o fortalecimento da UFSC. Esse intercâmbio garante o fortalecimento da instituição e, principalmente, a desconstrução de espaços fechados e de feudos.
 

Entrevista Irineu

Há 37 anos era técnico-administrativo, hojé é professor do departamento de Ciências da Administração da UFSC. Irineu Manoel de Souza possui bacharel em Administração, mestrado em Administração - com concentração em gestão universitária, e doutorado em gestão do Conhecimento, tudo pela UFSC. Carlos Antônio Ramirez Righi, vice da chapa, é professor no departamento de Expressão Gráfica desde 1993,  mestre e doutor em Engenharia de  Produção, com ênfase em Ergonomia Industrial.


 

 


Quais são suas propostas mais específicas para tratar das pesquisas na UFSC?


Nós entendemos que a universidade deverá criar uma estrutura de pesquisa mais institucional, porque as pesquisas são muito individualizadas ainda. Pensamos também que as pesquisas deverão ser voltadas para a área social. Nós observamos que nas universidades dificilmente ocorrem pesquisas - ou quando ocorrem é com pouca freqüência - na área pública ou na área de políticas públicas. Como ,por exemplo a questão da segurança, da saúde pública, da própria educação básica como da superior. Nós observamos que existem poucas linhas de pesquisa nessas áreas e entendemos que é fundamental que as universidades tenham uma preocupação maior com pesquisas voltadas para políticas públicas e sociais. A UFSC tem muitas pesquisas nas áreas tecnológicas e nas áreas das Humanas esse número é reduzido. Até porque,  é mais fácil conseguir linhas de financiamento para pesquisar, por exemplo, uma empresa multinacional do que para pesquisar as mazelas da administração pública ou a excelência da administração pública. Desde a década de 1980 para cá, os pesquisadores não priorizaram a área pública. Inclusive pesquisas na gestão das universidades federais. Não tem esse interesse porque, primeiro, não existe incentivo. As linhas de pesquisa do governo são mais voltadas para a área privada.  Por exemplo: eu fiz a minha pesquisa de Doutorado referente à complexidade que é para estudar a gestão de uma universidade federal, ou uma universidade pública. Nós entrevistamos todos os reitores das universidades federais e depois fizemos três pesquisas profundas em três grandes universidades – uma média, uma pequena e uma considerada de ponta que é a UFMG. Além de ter a dimensão de estudar todos os reitores das federais, fizemos uma pesquisa qualitativa em três universidades. O que nós observamos é que, de fato, a universidade não valoriza [a pesquisa referentes à administração pública]. Tanto é que a nossa pesquisa nós financiamos com recursos próprios. A universidade só nos pagou a passagem para nos deslocar de Florianópolis até o Ceará, de Florianópolis até Minas Gerais. Toda a parte de estadia e os gastos com a pesquisa, nós custeamos com os nossos recursos. Isso significa a pouca prioridade que é dada à pesquisa. As universidades – não só a nossa – deveriam fazer pesquisas sobre a saúde pública ou segurança, um tema importantíssimo. E como não temos pesquisas, não temos programas de ensino ou cursos específicos nessas áreas.  Por exemplo, deveríamos ter um curso na área de segurança, um curso de graduação ou de mestrado ou de doutorado. Deveríamos nos preocupar em formar pessoas habilitadas para atuar nessas áreas, que são altamente complexas. Também a própria cultura da gestão pública, a própria cultura do setor público, o próprio modelo de administração pública não tem essa preocupação. Por exemplo, poderíamos ter um concurso para um cargo - considerando a fragilidade do setor público brasileiro tanto federal, quanto municipal – que deveria exigir como requisito doutorado em gestão pública ou doutorado em saúde pública ou doutorado em segurança. Nós observamos que essas exigências de doutorado ou mestrado ocorrem para o magistério, para o ensino superior. Mas deveria ocorrer essa preocupação da qualidadetambém para a administração pública. E isso não acontece porque, como não existem essas pesquisas, a própria cultura da administração pública tem essa dimensão de nivelar por baixo. E as universidades deveriam se preocupar em formar e a administração pública deveria se preocupar em exigir pessoas habilitadas nessas áreas para, de fato, desenvolver as políticas públicas necessárias para o país.
Qual é a sua visão em termos de infraestrutura de materiais e laboratórios?

O pesquisador, hoje, tem uma dificuldade enorme na questão de infraestrutura, na questão operacional. Pesquisador não consegue ter acesso aos materiais necessários para pesquisa. Por esse motivo ele precisa utilizar as tais fundações. Existe uma incompetência da gestão, porque as universidades poderiam muito bem ter uma competência instalada nessas áreas. Essas compras  são consideradas difíceis de serem realizadas em função do pregão eletrônico e das licitações que são feitas, enfim, da padronização que existe no serviço público - que é necessário –, contudo, a própria lei prevê a possibilidade de dispensar das licitações materiais destinados à pesquisa. Mas falta competência da universidade para agir e utilizar essas especificidades. A lei também disponibiliza, por exemplo, alguns recursos como suprimento de fundos para compras miúdas, compras rápidas ou emergências. Mas isso no contexto da burocracia da universidade fica muito difícil. E o pesquisador, que poderia pesquisar mais, não consegue desenvolver sua pesquisa, que poderia ter resultados importantes para a sociedade e a universidade. Isso é dificultado em função do sistema burocrático que nós temos. A nossa organização é uma estrutura altamente burocrática, é uma estrutura herdada dos Estados Unidos e que foi implantada aqui no Brasil no governo militar e nós sempre criticamos essa estrutura, mas, no entanto, as universidades não conseguiram fazer uma estrutura que conseguisse atender, de fato, às especificidades da universidade.

O senhor poderia falar da questão de intercâmbios de pesquisadores do exterior vindo para cá ou daqui indo para lá para adquirir experiência? E gostaria de saber se o senhor tem uma política ou um plano de desenvolvimento e de parcerias com as instituições públicas.


Na pesquisa é fundamental esse intercâmbio com outras universidades, com universidades estrangeiras. A universidade tem vários projetos, várias parcerias, existem em todas as áreas, existem inúmeros projetos.  A nossa universidade é uma universidade forte na área da pesquisa. A pesquisa na universidade vai indo bem e tem sido destacada. Nós temos crescido muito na pesquisa e a universidade tem dado prioridade para a pesquisa. Têm ocorrido, por sua vez, muitos processos favoráveis, projetos e editais favorecendo a pesquisa. A necessidade ou a dificuldade do pesquisador é exatamente essa questão mais de infraestrutura. Pesquisador no Brasil perde muito tempo com a burocracia e falta de infraestrutura. Isso será melhorado quando nós tivermos uma estrutura mais flexível, uma estrutura de universidade. Essa é uma estrutura de empresa, uma estrutura departamentalizada. Até as empresas estão mudando e não estão mais aceitando essa estrutura, porque elas sabem que o poder está no conhecimento e não na hierarquia, que devemos descentralizar e delegar em ponderadas pessoas que têm conhecimento para decidir. A universidade, que é a casa do conhecimento, não consegue fazer isso na prática. Inclusive, a universidade só vai crescer se ela puder e tiver a intenção de dar continuidade e acelerar. Essas pesquisas e esses intercâmbios internacionais são fundamentais. A universidade não pode se limitar ao pais que ela está localizada. Por isso tem o nome de universidade. Temos que pensar na ciência e acompanhar o crescimento, as pesquisas, o desenvolvimento científico e tecnológico, as descobertas que a cada dia surgem e o avanço das tecnologias. Enfim, ela precisa estar com parceria com todas as universidades internacionalmente para exatamente se apresentar com mais qualidade no ensino, na pesquisa e na extensão. E acompanhando todo o desenvolvimento da ciência, que a cada dia nós temos uma situação nova, uma descoberta nova. A universidade precisa estar trabalhando esse conhecimento e socializando-o para as pessoas, para os novos alunos que estão ingressando, para os pesquisadores que estão desenvolvendo suas pesquisas na universidade e transformando em extensão essa pesquisa e aplicando-a na sociedade.


Se o senhor tivesse que dizer nas diferentes áreas, por exemplo infraestrutura, qualidade dos professores, bolsas para estudantes, qual é a área que precisa de mais investimentos, de maiores mudanças e como o senhor acha que consegue fazer isso? Em relação à pesquisa.


Em relação à pesquisa, a infraestrutura. Hoje em dia, a universidade está um caos. Os professores têm o projeto, têm o recurso. Se entrevistares a Pró-Reitoria de Pesquisa, o pessoal que trabalha com os projetos na Pró-Reitoria de Pesquisa, o pessoal vai informar que tem desde 2009 há cursos que não conseguem comprar o que os pesquisadores precisam, por questão dessa burocracia e dessa falta de flexibilidade que é a estrutura da universidade. Nós temos propostas para flexibilizar. Porque não basta criar novas Pró-Reitorias, como foi criado na gestão atual do professor Prata, como a Pró-Reitoria de Infraestrutura e Pró-Reitoria de Compras. São Pró-Reitorias com o mesmo sentido. Não basta criar Pró-Reitorias. A universidade, hoje, tem 19 Pró-Reitorias. O que precisa é verificar o trabalho dentre os pesquisadores, do pessoal que opera essas compras e chegar em um entendimento, em uma compreensão e no conhecimento de como facilitar e de como flexibilizar essas compras dentro da legislação e atendendo aos pesquisadores.