Meio Ambiente


Pesquisadores do Micolab falam sobre prêmio recebido no Rio Grande do Sul


O Ciência em Pauta conversou com Fernando Mafalda Freire,  24 anos, vencedor do Prêmio Jovem Pesquisador do Salão de Iniciação Cientifica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul 2012 (SIC 2012/UFRGS) na área de Ciências Biológicas. Natural de São Leopoldo – RS, ele se formou no primeiro semestre de 2012 como Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

Mesmo depois de formado, Fernando continua trabalhando no Laboratório de Micologia da UFSC (Centro de Ciências Biológicas) no projeto que lhe rendeu a primeira colocação no SIC 2012/UFRGS: “Diversidade de Cordyceps s.l. em Santa Catarina – CordycepsSC”, com os orientadores Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos e Maria Alice Neves.

 

Nesta entrevista, o biólogo nos conta sobre o projeto de Cordyceps (fungos parasitas e artrópodes), a participação no Salão UFRGS 2012 e os projetos para o futuro. A entrevista também tem a participação do professor Elisandro Ricardo Dreschler dos Santos.

 

Ciência- O Laboratório de Micologia da UFSC é responsável por estudar a relação evolutiva entre grupos de fungos e está diretamente ligado ao projeto. Como os estudos do trabalho começaram?

 

Fernando- O Micolab tem hoje dois especialistas em micologia, o professor Ricardo e a professora Maria Alice e dois alunos estudando especificamente Cordyceps s.l.. O laboratório trabalha com sistemática, filogenia e ecologia de macrofungos, mas quando comecei a trabalhar aqui acabei me interessando por fungos que parasitavam insetos, pois estes me chamaram bastante atenção. Resolvi estudar um pouco da literatura sobre esses fungos entomopatógenos e, aparentemente, a riqueza era muito baixa aqui no estado, pois quase não havia pesquisas sobre o grupo, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil. Aos poucos fomos buscando literatura para determinar o que se sabia sobre este grupo.Outro fator interessante foi encontrarmos uma riqueza muito grande de espécies no estado. Esses novos registros nos abriram portas para que começássemos a conversar com os principais especialistas do Brasil e do mundo abrindo outros caminhos para o estudo.

 

Ciência- O seu estudo sobre os fungos parasitas está diretamente ligado ao Micolab da UFSC e mesmo depois de formado você continua trabalhando no laboratório. Por que ainda não houve esse desligamento?

 

Fernando- Quando você termina o curso, ainda deixa algumas coisas a serem feitas. O trabalho obteve muitos resultados e que ainda preciso concluir alguns; eu quero publicar esses resultados e apresentar o maior número de trabalhos possível. E também neste final de ano, estão acontecendo vários congressos, encontros, simpósios e o próprio salão de iniciação cientifica. Então eu preservei o contato com o laboratório.

 

Ciência- O que são os Cordyceps (fungos bacterianos e os artrópodes)?

 

Fernando- Eles são Fungos do filo Ascomycota, altamente especializados em parasitar artrópodes, em alguns casos essa associação é em espécie específica. Ou seja, de alguma forma ao longo da evolução, eles se especializaram em contaminar ou em usar como substrato de crescimento insetos e aracnídeos. Assim como tem parasitas dos seres humanos, por exemplo, as micoses, existem os parasitas dos insetos, que são esse, em sua grande maioria, de Cordyceps s.l.. A distribuição desses fungos é global, menos nos trópicos (Antártida). Os Cordyceps fazem uma espécie de controle populacional destes artrópodes, podendo mudar o comportamento de alguns insetos, como o das formigas, para benefício próprio.

 

Ciência- O que te levou a estudar as taxonomias ?

 

Fernando- Eu fiz uma matéria optativa do meu curso (Micologia de Campo), que é uma matéria intensiva, que acontece nas férias de verão. É feita toda em campo, começa com um fundamento teórico e depois parte para a prática. Quando eu tive este contato de sair a campo estudando materiais, escrevendo e fazendo apresentações, acabou sendo o meu primeiro contato com o laboratório e os orientadores.

 

Ciência- Como o trabalho é desenvolvido?

 

Fernando- Basicamente o que a gente fez foi ir a campo para coletar esses materiais e desidratá-los em secadoras [de alimentos simples] para preservar o material que não sofrerá contaminação por bactérias e outros fungos. Nós fazemos cortes e descrevemos macroscopicamente e microscopicamente o material coletado. Tentamos isolar esse organismo em Placas de Petri contendo Agar Batata [meio utilizado para isolamento, cultivo de fungos] e através deste conjunto de características, tentamos determinar as espécies.

 

Ciência- Quais foram as maiores dificuldades encontradas durante a pesquisa?

 

Fernando- A maior dificuldade foi a bibliografia escassa sobre o grupo que estudamos. Também tivemos algumas dificuldades em conseguir apoio financeiro na faculdade, principalmente para transporte, que gastávamos bastante.

 

Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos- Uma das principais dificuldades é começar o trabalho do zero por ser um projeto piloto e a literatura ser escassa. Mas acredito que a maior dificuldade seja o fato dos especialistas estarem longe e haver necessidade de conseguir contatá-los. E como é um grupo que apresenta estruturas reprodutivas muito pequenas das quais a gente utiliza para identificar os fungos, a gente acaba não tendo muito material para fazer a molecular que é o que pode nos ajudar de forma mais significativa. A ideia não é só seguir um conceito de espécie e sim tentar utilizar várias ferramentas como morfologia, biologia, molecular e ecologia que são fatores importantes para a identificação do material. A gente depende também de especialistas de outros grupos pra auxiliar na descoberta das espécies em que os fungos estão parasitando.

 

Ciência- Quanto tempo demorou pra vocês fazerem os estudos iniciais e coletar as amostras até conseguirem resultados satisfatórios?

 

Fernando- Não há um tempo estabelecido, a gente busca definir objetivos e metas no qual o nosso limitante não será o resultado final, mas o tempo utilizado para cada etapa de pesquisa. Utilizamos em torno de três meses para coletar a bibliografia e entre seis meses a um ano para colher os materiais e descrevê-los.

 

Ciência- Quanto tempo levou para a pesquisa ser feita?

 

Fernando- Um ano e meio. Este é um projeto piloto no Brasil, onde atualmente existe somente um ou outro grupo de pesquisas na área.

 

Ciência- De acordo com os resultados obtidos até agora, qual a importância desta pesquisa para a ciência?

 

Fernando- Os resultados são de uma riqueza quase desconhecida para o estado. A gente encontrou 54 morfoespécies (não temos certeza se todas são espécies novas), mas a gente acredita que são 54 espécies diferentes de fungos que parasitam insetos.

 

Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos - há vários conceitos de espécies: biológico, morfológico, filogenético, fisiológico, ecológico, entre outros. Então, pra cada um desses conceitos operacionais, nós utilizamos uma metodologia mais específica. Por exemplo, para o biológico fazemos testes de cruzamento, se gerar descendência, quer dizer que pertencem à mesma espécie de indivíduos. O conceito morfológico é o mais utilizado e sabemos que embora coisas se pareçam, podem ser bastante distintas. Então, às vezes a morfologia por si só é limitante pra definir espécies e isso gera um problema que são os complexos taxonômicos, nos quais você acaba denominando pra um táxon várias espécies que estão no mesmo táxon.

 

Ciência- Você pretende continuar com as pesquisas nessa área?

 

Fernando- Sim, no meu mestrado eu já tenho uma noção do que eu vou trabalhar e vou seguir uma linha um pouco mais aprofundada do grupo. Eu comecei só com a descrição taxonômica (descrição macro e microscópica dos organismos) e riqueza das espécies de Santa Catarina pra saber quantas espécies eram e onde estavam localizadas. Agora eu quero fazer uma descrição mais aprofundada e comparar as espécies do estado com espécies de outros lugares do mundo, trabalhar com molecular e ecologia destes grupos e tentar descobrir qual é o potencial deles na natureza.

 

 

 

 

Ciência- O que te motivou a concorrer ao prêmio?

 

Fernando- Os meus orientadores gostaram do trabalho que eu estava desenvolvendo no laboratório porque apesar de ser um estudo que de certa forma não dominávamos, obtivemos êxito. Por se tratar de uma pesquisa piloto onde não há muitos trabalhos no Brasil, o ideal seria divulgar pro máximo de lugares possíveis e foi o que nós fizemos quando surgiu a oportunidade de concorrer no Salão de Iniciação Cientifica da UFRGS.

 

Ciência- Qual a sensação de receber um prêmio como esse?

 

Fernando- Não era algo muito esperado por que fomos sem muita pretensão, a gente queria divulgar o trabalho. É claro que eu me dediquei ao máximo, trato sempre o meu trabalho com muita seriedade e esse reconhecimento é muito legal. Eu acho que às vezes exageram um pouco, mas eu abri caminho para que outras pessoas do nosso laboratório também se espelhem, assim como eu também me espelho no trabalho deles. Quase tudo o que eu fiz ao apresentar e montar o projeto foram espelhados no trabalho do meu orientador e nos colegas de laboratório e isso foi um facilitador, estou trabalhando com pessoas muito legais e esse é um reconhecimento para todos. É muito legal receber um prêmio, mas não era esse o objetivo.

 

Ciência- Você está desenvolvendo algum outro projeto além desse?

 

Fernando- Nós estamos focando bastante nos resultados desta pesquisa e na parte de filogenia e taxonomia do grupo. No dia 03 de dezembro vou fazer uma prova de mestrado de Biologia na UFSC e pretendo continuar as pesquisas.

 

Elisandro - o Fernando fez uma coisa que é muito importante que foi buscar essas informações que agora precisam ser tratadas para conseguirmos a melhor forma de divulgar essas novidades cientificas. Então, nesse primeiro momento deve-se buscar as espécies e fazer uma primeira discussão, tentar identificar com base na morfologia principalmente, já foi um grande trabalho e que era necessário como embasamento para o que ele pretende fazer agora no mestrado. Tendo pela frente um grande desafio que é conseguir os cultivos para poder ter material biológico suficiente para fazer as extrações e a molecular, e é essa molecular que vai confirmar se essas espécies são novas e distintas.

 

Fernando- Eu acho que esse foi um dos fatores delimitantes do trabalho porque como o material é muito pequeno e é difícil encontrar duas, três réplicas do mesmo material, a gente acaba se limitando. Nós não temos muito material pra trabalhar, principalmente com a molecular que é hoje uma ferramenta que tem um conceito muito importante no meio cientifico.


[ O orientador do trabalho, professor Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos, interrompe a fala para ressaltar a importância do reconhecimento do trabalho e a premiação do projeto]

 

Elisandro - É muito importante trabalhar sem ter a expectativa de um prêmio e esse prêmio vir por conseqüência deste trabalho. O desafio para mim, a professora Maria Alice e o Fernando foi muito grande e a participação de especialistas coreanos nos ajudou de forma significativa. O Fernando teve uma dedicação extrema ao trabalho e na verdade, quando eu mandei esse projeto para avaliação, o fato de termos conseguido uma bolsa PIBIC do CNPq pela Universidade, já foi um reconhecimento da tentativa de se fazer um trabalho pioneiro. Então, depois de um ano de trabalho do Fernando e da nossa orientação, ser premiado em um SIC em uma universidade muito conceituada do nosso pais como a UFRGS, é extremamente gratificante. Hoje a gente vê que fez a coisa certa, demos a oportunidade para um aluno de estar no laboratório, descrevemos um projeto e conseguimos uma nova bolsa para a entrada de uma aluna. A ideia é essa, formar recursos humanos especializados nesse trabalho e também pela necessidade de especialistas nessa área no Brasil. Buscar a diversidade de um grupo de fungos tão pouco conhecidos e que tem uma história ecológica tão interessante, por si só já é muito gratificante. A gente trabalha por amor à camisa e o prêmio é mais uma consequência deste trabalho forte e objetivo.

 

Ciência- O prêmio do SIC foi de um Ipad para o aluno e de uma bolsa de iniciação cientifica para o orientador...

 

Elisandro - Como já temos bolsa PIBIC, ainda não decidi qual será a finalidade dessa nova bolsa que deve estar vinculada a algum projeto do grupo de fungos, mas acredito que será utilizada nesse trabalho dos cordyceps por gerar uma maior demanda.

 

Direito Ambiental é tema de pesquisas desenvolvidas na UFSC

 

Entre os dias 9 e 11 de novembro o GPDA - Grupo de Pesquisa Direito Ambiental na Sociedade  de Risco - realiza o  II Ciclo de Atualização em Direito Ambiental com o objetivo de  atualizar a sociedade sobre temas atuais e polêmicos. O grupo é coordenado, desde 1994, pelo professor José Rubens Morato e oferece assistência jurídica para Associações Civis Ambientais de Florianópolis.

Em entrevista ao Ciência em Pauta, o ganhador do Prêmio Destaque Pesquisador 2011 pelo Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) e também Vice-Presidente do Instituto “O Direito Por um Planeta Verde”, maior ONG no Brasil voltada para a proteção jurídica ambiental, falou sobre suas atuais pesquisas, o GPDA e o projeto do novo Código Florestal. Confira !

 

 

Especial Fritz Müller

Ano de 1868: Fritz Müller recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Bonn, na Alemanha. Seis anos depois, a Universidade de Tübingen, também na Alemanha, concede o mesmo título a Müller. Ano de 2009: A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), durante a 8ª Semana de Ensino Pesquisa e Extensão (SEPEX), atribui o título ao cientista naturalizado brasileiro

 

Grupos de pesquisa estudam desastres naturais

As consequências das chuvas de 2008 em Santa Catarina ainda persistem. Alguns reconstroem suas casas e outros continuam desalojados, como no caso de duas mil famílias em Blumenau, município que teve 95% de sua área inundada. Naquele ano, foram 135 mortes por conta das inundações e, em 2009, as precipitações atingiram 160 mil pessoas, provocaram novos desalojamentos, ocorreram vendavais e 70 municípios decretaram estado de emergência, de acordo com a Defesa Civil do Estado. Segundo o relatório anual de desastres de 2008, elaborado pelo Centro de Pesquisa em Epidemias e Desastres (CRED), o Brasil é o país com o maior número de pessoas afetadas pelas chuvas e enchentes no Hemisfério Sul. Em 2008, as chuvas afetaram 1,5 milhão de pessoas em Santa Catarina e 1,5 milhão de pessoas no Nordeste.

 

Pesquisas com petróleo focam em exploração e danos ambientais

No final do corredor, um aglomerado de 512 processadores ligados (cluster) diretamente à uma sala de transmissão 3 D, com cadeiras metálicas, estofadas com couro. A estrutura foi inaugurada em fevereiro custou 1,7 milhão de reais e está instalada no Laboratório de Simulação Numérica em Mecânica dos Fluidos Transferência de Calor (Sinmec), do Departamento de Engenharia Mecânica. O cluster é necessário para exibir as imagens 3 D dos resultados obtidos com os simuladores para a perfuração de rochas e a extração do petróleo.