Letras & Artes




Literatura influencia formação da identidade infantil

 

 

-Mas, vovó, o gosto pela leitura não vem da escola?

- Ah, não, minha filha. Os livros escolares são em geral tão sem graça com suas estopadas instrutivas, morais e cívicas, que as crianças saem da escola com horror do papel impresso, absolutamente convencidas de que todos os livros são maçadores. É justamente nas bibliotecas infantis, livremente organizadas, que as crianças tomam gosto pela leitura ou se libertam do horror ao papel impresso que adquirem nas escolas.


Depois da pergunta de Narizinho, Dona Benta deu logo a resposta que muitos professores ouviriam com o nariz torcido de Emília. Hoje, 66 anos depois que esse diálogo foi escrito e lido por Monteiro Lobato na inauguração de um busto em sua homenagem, ainda se discutem propostas de escolarização da literatura.

Na UFSC, pesquisadoras como Luana von Linsingen estudaram questões que se vinculam diretamente ao papel da literatura infantil  no desenvolvimento e no aprendizado das crianças. Em sua dissertação de mestrado, a autora abordou a literatura infantil no ensino da disciplina de Ciências e chegou a conclusões instigantes. Ao analisar uma coleção de livros infantis com temas relacionados principalmente à Biologia, foi possível fazer uma série de reflexões, inclusive sobre a capacidade efetiva de a literatura didática ensinar e transmitir conhecimentos. Nesse caso, o papel do professor adquire uma importância fundamental.


Para tornar mais efetiva a aprendizagem das crianças através da leitura, se faz necessário nas escolas a presença de educadores capacitados para mediar a relação da criança com o livro, uma tarefa bem mais complicada do que parece. Um dos motivos é a falta de uma preparação adequada por parte destes educadores, como atesta a pesquisadora Eliane Debus, que ministra a disciplina Literatura Infantil no curso de Pedagogia da UFSC.  “Muitos professores tem uma visão muito utilitarista da literatura, a literatura apenas na escola. O mediador não pode se preocupar apenas em passar um conteúdo, mas também em criar o gosto pela leitura nos seus alunos” .


Outra questão é definir o tipo de literatura e o momento em que será usado. Há professores que não incluem nas suas aulas o incentivo à leitura lúdica e utilizam a literatura apenas com caráter didático, como único eixo que norteia a inserção de livros infantis na escola. Na visão de Luana von Linsinger, porém, a literatura não deve ser usada na disciplina de Língua Portuguesa, por exemplo, apenas como base para ensinar gramática, gêneros textuais e algo como interpretação de texto. Para a professora, o papel da leitura vai muito além disso. “É essencial dar a ênfase necessária a outro valor da literatura, que muitas vezes é deixado de lado: o da formação da identidade”. A fábula, gênero amplamente explorado na literatura infantil, figura como um formador de identidade nesse contexto, já que os diálogos nela construídos são essencialmente simbólicos. Ao interpretá-la, a criança trabalha com a construção e revisitação de sentidos, de formação de significados.


E seja falando de literatura infantil, de ensino através da literatura ou de fábula, é impossível não voltar a Monteiro Lobato. O escritor foi capaz de fazer o que Eliane Debus considera como “mágico”: embora tenha produzido livros com caráter curricular, tais como “Emília no País da Gramática”, suas obras reuniram elementos fantásticos e didáticos em um formato sem precedentes. Em  “A Chave do Tamanho”, por exemplo, Lobato usa o olhar de Emília para transportar o leitor ao mini e micro universo biológico, quando, na história, a personagem fica do tamanho de um inseto e passa a enxergar o mundo por outra perspectiva. Neste sentido, a obra de Lobato assume duplo valor ao ensino de Ciências, pois incita a observação, a concentração e a interpretação de um ambiente, além da busca pelas relações entre os fatores bióticos e abióticos e o incentivo à prática do exercício de "olhar além do umbigo", de despojamento do egoísmo natural entre crianças e adolescentes.


Leitura didática : o ‘terror’ da criançada


Na escolha do uso deste ou daquele tipo de livro também vale lembrar que, como Von Linsinger afirma, “para a criança o livro didático é uma chatice a priori.” Naturalmente, é difícil para o estudante ser obrigado a assimilar a informação contida num material durante uma leitura que foi imposta por alguém.  Além disso, é no livro didático que estão as questões que ele tem que realizar em casa, como tarefa, quando gostaria de estar fazendo outras atividades. “Uma das grandes barreiras do livro didático é que ele já vem ao aluno como material forçado. Não foi algo que ele escolheu, foi algo que a escola e o professor escolheram e que ele terá de engolir”, explica.


Para a pesquisadora, a utilização de livros paradidáticos – caracterizados por uma linguagem coloquial com a presença de diálogos e elementos como o humor -  é uma ótima alternativa para que o gosto pela leitura seja adquirido desde a infância. “Não se trata de um texto simples, esvaziado de conteúdo relevante; é um texto mais acessível. Com isso, desarma-se a resistência original do aluno, que acaba se tornando mais atento ao que está sendo informado”. Von Linsinger acredita que a escolha, junto com a destituição de um preconceito para com a leitura de um conteúdo visto como "de escola", auxilia o processo cognitivo do estudante.


A questão central do problema é que, para aprimorar a utilização do livro na escola, é importante que haja pesquisa nessa área - na UFSC, não há nenhum grupo de pesquisa que aborde sistematicamente o tema. Eliane Debus afirma que, no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Língua portuguesa e Alfabetização (NEPALP), ela é a única que foca essa temática, e defende que deveria haver mais espaço para estudos mais aprofundados do assunto na Universidade.


Para saber mais:

*Livro “Monteiro Lobato e o leitor, esse conhecido”, de Eliane Debus

*Dissertação de Mestrado “Literatura infantil no ensino de Ciências: articulações a partir da análise de uma coleção de livros” de Luana von Linsingen. http://www.tracaletras.com.br/mestrado/linsingen.2008.integral.pdf

 


Pesquisa analisa a inclusão no ensino em Florianópolis

Já se passaram duas décadas desde que Florianópolis começou a trabalhar com educação especial. Em 1988, foi a criada a primeira equipe para articular as ações inclusivas na rede municipal de ensino. Nos anos 90, a política procurava adequar o aluno à escola e a ideia de que não deveriam existir dois sistemas educacionais distintos, e sim um único, já era divulgada.

Para entender como está articulada essa política de inclusão, a professora Maria Helena Michels apresentou em 2006 para do Departamento de Estudos Especializados em Educação a proposta da pesquisa “A reorganização da rede de ensino de Florianópolis na perspectiva da educação inclusiva: formas organizativas do trabalho pedagógico e formação de professores”. A pesquisadora tinha acabado de ingressar na UFSC e obteve apoio do Funpesquisa para realizar o estudo.

Durante a avaliação, foram feitas pesquisas documentais e entrevistas com profissionais da Gerência de Educação Especial. A pesquisadora concluiu que a educação especial em Florianópolis é organizada, mas em uma perspectiva. A proposta assenta-se na compreensão da inclusão como uma prática, para a eliminação de barreiras. Mas essa visão acaba colocando a educação dos alunos especiais em termos de capacidades individuais. “As crianças têm direito de estar ali, e elas estão. São atendidas em um serviço que a gente chama de AEE, o Atendimento Educacional Especializado. Mas como fica a classe comum? E a professora do primeiro ano, que tem alunos com diferentes diagnósticos de deficiência na sala?”

O AEE foi iniciado em 2003, atendendo portadores de deficiência visual e auditiva. Com o tempo, o atendimento à deficiência física, deficiência mental e altas habilidades foi inserido. O sistema está organizado nas salas multimeios, no CAP (Centro de Apoio Pedagógico de atendimento à deficiência visual), e no trabalho pedagógico dos auxiliares de ensino nas classes regulares da educação infantil e do ensino fundamental.

São 16 salas multimeios em escolas básicas e três em creches. Elas funcionam como pólos, atendendo também outras unidades de cada região. Todas têm, no mínimo, duas professoras especializadas que possuem ou graduação em Pedagogia com habilitação em Educação Especial ou licenciatura em Educação Especial em uma de suas áreas específicas. “Às vezes acontecem remanejamentos, mas por demanda. Por exemplo, quando um professor consegue sozinho trabalhar em um pólo, remanejamos o outro para um lugar com maior necessidade”, explica a assessora pedagógica da Gerência de Educação Especial, Adriana Argenta.

O atendimento educacional especializado não deve se restringir ao atendimento do aluno no contra-turno, horário alternativo ao do ensino regular. Engloba também a atuação do professor junto à classe comum. “O professor de 1ª a 4ª série, de 5ª a 8ª ou da educação infantil, provavelmente já recebeu ou receberá algum curso de formação continuada oferecido pela prefeitura. Mas eles não têm a formação específica para trabalhar com educação inclusiva”, afirma a também assessora pedagógica da Gerência de Educação Especial, Raquel Schappo.

Em relação à formação de professores, as ações desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Florianópolis englobam seminários que são oferecidos em parceria com o Ministério da Educação. A cidade, juntamente com mais quatro de Santa Catarina, é uma das escolhidas pelo Ministério da Educação para ser pólo de formação. Além desses seminários, é oferecida formação continuada aos professores da educação infantil e do ensino fundamental.

Apesar da posição de Florianópolis como núcleo de formação, as assessoras da Gerência em Educação Especial do município concordam que os professores saem da faculdade sem preparo para o trabalho de inclusão. Raquel Schappo explica que o professor do AEE atende a todas as deficiências. Ele não é especializado em trabalhar apenas com cegos ou surdos. “É uma demanda grande, aproximadamente 300 crianças. Atender a todos os alunos especiais dá mais trabalho, o professor tem que se atualizar continuamente, a formação desses profissionais acontece em sala de aula, em serviço. A faculdade realmente não prepara nenhum profissional para trabalhar em AEE.”

Adriana Argenta enxerga problemas com os professores do ensino regular – da educação infantil, das séries iniciais e, principalmente, das áreas, como Matemática, Química, etc. “Eles recebem uma formação bastante limitada no nosso entendimento. Acompanhamos de perto as escolas e observamos os novos professores chegarem não sabendo lidar com o deficiente, com gênero, com dislexia, com doenças mentais. É necessário correr atrás de formação continuada, tanto para o professor do AEE que deve estar se especializando na parte específica, quanto para o professor do ensino regular”, conclui.

A pesquisadora Maria Helena Michels observou que a educação especial continua num espaço específico. “A gente vê os slogans: a inclusão para todo mundo é um direito. Mas o que é que mudou na organização das escolas para atender os alunos especiais?” Para responder esta e outras perguntas – o que as crianças fazem no atendimento especializado que as ajuda a lidar com o conhecimento na classe comum? os professores da classe comum recebem orientação? como isso funciona? – a professora do CED iniciou outro projeto em 2009. O estudo procura perceber como se dá a articulação entre o atendimento educacional especializado e o ensino regular.


Avaliação das políticas de educação especial em Santa Catarina

Outro projeto da professora Maria Helena Michels, de 2008, foi expandir a análise feita em Florianópolis a seis municípios do estado. Chamada “A reorganização de redes municipais de ensino na perspectiva da educação inclusiva em Santa Catarina: formas organizativa do trabalho pedagógico e formação de professores”, a pesquisa teve apoio da Fapesc e coletou documentos como planos municipais, leis orgânicas, projetos e propostas para a educação especial e materiais de divulgação, nas secretarias de educação de Blumenau, Chapecó, Florianópolis, Lages, Joinville, São Bento do Sul e Tubarão.

O mapa interativo abaixo mostra alguns resultados:

 

Literatura influencia formação da identidade infantil


- Mas, vovó, o gosto pela leitura não vem da escola?
- Ah, não, minha filha. Os livros escolares são em geral tão sem graça com suas estopadas instrutivas, morais e cívicas, que as crianças saem da escola com horror do papel impresso, absolutamente convencidas de que todos os livros são maçadores. É justamente nas bibliotecas infantis, livremente organizadas, que as crianças tomam gosto pela leitura ou se libertam do horror ao papel impresso que adquirem nas escolas.

 

 


Peça de teatro encenada na UFSC conta a vida de Galileu

“Não posso mais ver as luas, mas sei que muitas gerações irão ver tudo que meus olhos de cientista ousaram ver”. Um Galileu Galilei já cego dirige-se para as 130 pessoas que lotam a Igreja da UFSC, na noite de uma sexta-feira, ao final da peça As Luas de Galileu. Em uníssono, o elenco termina dizendo: “Mas, no entanto, ela se move.”