Pesquisadores do Micolab falam sobre prêmio recebido no Rio Grande do Sul
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Escrito por Luan Martendal   
Qua, 14 de Novembro de 2012 17:41
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Pesquisadores do Micolab falam sobre prêmio recebido no Rio Grande do Sul
O prêmio
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O Ciência em Pauta conversou com Fernando Mafalda Freire,  24 anos, vencedor do Prêmio Jovem Pesquisador do Salão de Iniciação Cientifica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul 2012 (SIC 2012/UFRGS) na área de Ciências Biológicas. Natural de São Leopoldo – RS, ele se formou no primeiro semestre de 2012 como Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

Mesmo depois de formado, Fernando continua trabalhando no Laboratório de Micologia da UFSC (Centro de Ciências Biológicas) no projeto que lhe rendeu a primeira colocação no SIC 2012/UFRGS: “Diversidade de Cordyceps s.l. em Santa Catarina – CordycepsSC”, com os orientadores Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos e Maria Alice Neves.

 

Nesta entrevista, o biólogo nos conta sobre o projeto de Cordyceps (fungos parasitas e artrópodes), a participação no Salão UFRGS 2012 e os projetos para o futuro. A entrevista também tem a participação do professor Elisandro Ricardo Dreschler dos Santos.

 

Ciência- O Laboratório de Micologia da UFSC é responsável por estudar a relação evolutiva entre grupos de fungos e está diretamente ligado ao projeto. Como os estudos do trabalho começaram?

 

Fernando- O Micolab tem hoje dois especialistas em micologia, o professor Ricardo e a professora Maria Alice e dois alunos estudando especificamente Cordyceps s.l.. O laboratório trabalha com sistemática, filogenia e ecologia de macrofungos, mas quando comecei a trabalhar aqui acabei me interessando por fungos que parasitavam insetos, pois estes me chamaram bastante atenção. Resolvi estudar um pouco da literatura sobre esses fungos entomopatógenos e, aparentemente, a riqueza era muito baixa aqui no estado, pois quase não havia pesquisas sobre o grupo, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil. Aos poucos fomos buscando literatura para determinar o que se sabia sobre este grupo.Outro fator interessante foi encontrarmos uma riqueza muito grande de espécies no estado. Esses novos registros nos abriram portas para que começássemos a conversar com os principais especialistas do Brasil e do mundo abrindo outros caminhos para o estudo.

 

Ciência- O seu estudo sobre os fungos parasitas está diretamente ligado ao Micolab da UFSC e mesmo depois de formado você continua trabalhando no laboratório. Por que ainda não houve esse desligamento?

 

Fernando- Quando você termina o curso, ainda deixa algumas coisas a serem feitas. O trabalho obteve muitos resultados e que ainda preciso concluir alguns; eu quero publicar esses resultados e apresentar o maior número de trabalhos possível. E também neste final de ano, estão acontecendo vários congressos, encontros, simpósios e o próprio salão de iniciação cientifica. Então eu preservei o contato com o laboratório.

 

Ciência- O que são os Cordyceps (fungos bacterianos e os artrópodes)?

 

Fernando- Eles são Fungos do filo Ascomycota, altamente especializados em parasitar artrópodes, em alguns casos essa associação é em espécie específica. Ou seja, de alguma forma ao longo da evolução, eles se especializaram em contaminar ou em usar como substrato de crescimento insetos e aracnídeos. Assim como tem parasitas dos seres humanos, por exemplo, as micoses, existem os parasitas dos insetos, que são esse, em sua grande maioria, de Cordyceps s.l.. A distribuição desses fungos é global, menos nos trópicos (Antártida). Os Cordyceps fazem uma espécie de controle populacional destes artrópodes, podendo mudar o comportamento de alguns insetos, como o das formigas, para benefício próprio.

 

Ciência- O que te levou a estudar as taxonomias ?

 

Fernando- Eu fiz uma matéria optativa do meu curso (Micologia de Campo), que é uma matéria intensiva, que acontece nas férias de verão. É feita toda em campo, começa com um fundamento teórico e depois parte para a prática. Quando eu tive este contato de sair a campo estudando materiais, escrevendo e fazendo apresentações, acabou sendo o meu primeiro contato com o laboratório e os orientadores.

 

Ciência- Como o trabalho é desenvolvido?

 

Fernando- Basicamente o que a gente fez foi ir a campo para coletar esses materiais e desidratá-los em secadoras [de alimentos simples] para preservar o material que não sofrerá contaminação por bactérias e outros fungos. Nós fazemos cortes e descrevemos macroscopicamente e microscopicamente o material coletado. Tentamos isolar esse organismo em Placas de Petri contendo Agar Batata [meio utilizado para isolamento, cultivo de fungos] e através deste conjunto de características, tentamos determinar as espécies.

 

Ciência- Quais foram as maiores dificuldades encontradas durante a pesquisa?

 

Fernando- A maior dificuldade foi a bibliografia escassa sobre o grupo que estudamos. Também tivemos algumas dificuldades em conseguir apoio financeiro na faculdade, principalmente para transporte, que gastávamos bastante.

 

Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos- Uma das principais dificuldades é começar o trabalho do zero por ser um projeto piloto e a literatura ser escassa. Mas acredito que a maior dificuldade seja o fato dos especialistas estarem longe e haver necessidade de conseguir contatá-los. E como é um grupo que apresenta estruturas reprodutivas muito pequenas das quais a gente utiliza para identificar os fungos, a gente acaba não tendo muito material para fazer a molecular que é o que pode nos ajudar de forma mais significativa. A ideia não é só seguir um conceito de espécie e sim tentar utilizar várias ferramentas como morfologia, biologia, molecular e ecologia que são fatores importantes para a identificação do material. A gente depende também de especialistas de outros grupos pra auxiliar na descoberta das espécies em que os fungos estão parasitando.

 

Ciência- Quanto tempo demorou pra vocês fazerem os estudos iniciais e coletar as amostras até conseguirem resultados satisfatórios?

 

Fernando- Não há um tempo estabelecido, a gente busca definir objetivos e metas no qual o nosso limitante não será o resultado final, mas o tempo utilizado para cada etapa de pesquisa. Utilizamos em torno de três meses para coletar a bibliografia e entre seis meses a um ano para colher os materiais e descrevê-los.

 

Ciência- Quanto tempo levou para a pesquisa ser feita?

 

Fernando- Um ano e meio. Este é um projeto piloto no Brasil, onde atualmente existe somente um ou outro grupo de pesquisas na área.

 

Ciência- De acordo com os resultados obtidos até agora, qual a importância desta pesquisa para a ciência?

 

Fernando- Os resultados são de uma riqueza quase desconhecida para o estado. A gente encontrou 54 morfoespécies (não temos certeza se todas são espécies novas), mas a gente acredita que são 54 espécies diferentes de fungos que parasitam insetos.

 

Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos - há vários conceitos de espécies: biológico, morfológico, filogenético, fisiológico, ecológico, entre outros. Então, pra cada um desses conceitos operacionais, nós utilizamos uma metodologia mais específica. Por exemplo, para o biológico fazemos testes de cruzamento, se gerar descendência, quer dizer que pertencem à mesma espécie de indivíduos. O conceito morfológico é o mais utilizado e sabemos que embora coisas se pareçam, podem ser bastante distintas. Então, às vezes a morfologia por si só é limitante pra definir espécies e isso gera um problema que são os complexos taxonômicos, nos quais você acaba denominando pra um táxon várias espécies que estão no mesmo táxon.

 

Ciência- Você pretende continuar com as pesquisas nessa área?

 

Fernando- Sim, no meu mestrado eu já tenho uma noção do que eu vou trabalhar e vou seguir uma linha um pouco mais aprofundada do grupo. Eu comecei só com a descrição taxonômica (descrição macro e microscópica dos organismos) e riqueza das espécies de Santa Catarina pra saber quantas espécies eram e onde estavam localizadas. Agora eu quero fazer uma descrição mais aprofundada e comparar as espécies do estado com espécies de outros lugares do mundo, trabalhar com molecular e ecologia destes grupos e tentar descobrir qual é o potencial deles na natureza.

 



Última atualização em Qua, 28 de Novembro de 2012 11:55
 

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