Pesquisa analisa afastamento do trabalho por depressão
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Escrito por Jéssica Fuchs   
Ter, 21 de Junho de 2011 00:00

 

O número de pessoas que se afastam do ambiente de trabalho em decorrência de problemas de saúde mental é crescente. Estatísticas do Ministério da Previdência Social revelam uma maior quantidade de pagamentos de auxílio-doença para os trabalhadores. Em 2010, dos 100 transtornos classificados como mentais e de comportamento, só os episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente representaram 40,7% dos benefícios concedidos.

 

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 50 pessoas, entre servidores técnico-administrativos e professores, se afastaram do trabalho devido à depressão entre julho e dezembro de 2009. Em 2010, a psicóloga de Recursos Humanos do Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (SESC/SC), Gabriela Cavalheiro, analisou alguns desses casos e fez sua dissertação sobre os sentidos que os trabalhadores afastados atribuem ao seu ofício. A psicóloga avaliou 50 prontuários, sendo que, desse total, 36 foram utilizados para o estudo. Por fim, oito participantes foram considerados aptos e/ou aceitaram participar de uma entrevista individual.

 

 

 

Cavalheiro constatou que todos os que participaram do estudo concebem a profissão como emprego e de forma geralmente positiva. Os entrevistados atribuíram a seu trabalho sentidos como a “contribuição social de sua atividade” e “fonte de saúde, de prazer, de oportunidade de estar com as pessoas”. O estudo ainda mostra que o próprio afastamento do ambiente da organizacional, na maioria dos casos, interferiu nos relacionamentos dos indivíduos e afetou seus sentidos de utilidade e independência.

 

A maior parte desses trabalhadores tinha o diagnóstico de depressão há cinco anos. O caso mais comum é a depressão recorrente, caracterizado por episódios depressivos constantes, ansiedade, pânico e transtornos de adaptação. A autora notou que os sintomas mais citados pelos pacientes eram “vontade de chorar, angústia, ansiedade, insônia, necessidade de isolamento e presença de pânico ou medo grande de enfrentar situações”. Um dos entrevistados, que sofre de transtorno depressivo recorrente, conta o que sentia. “De repente tudo perdeu o sentido, não tinha vontade de fazer nada, perdi a vontade de viver; precisava de isolamento, não queria falar com ninguém, ficava no escuro, não queria ver ninguém, se as pessoas ficavam preocupadas, me incomodava, brigava”, relata um servidor técnico-administrativo da UFSC, à época com 58 anos.

 

Preconceito


O tratamento para depressão é geralmente feito a partir da prescrição de medicamentos.  Conforme cita a pesquisadora, 70% dos pacientes tomam algum tipo de remédio para tratar a doença. Os casos analisados na pesquisa mostram que eles usam, em média, três medicamentos ao mesmo tempo. Os principais são antidepressivos e ansiolíticos, para ansiedade. A autora cita em sua dissertação que “no predomínio da concepção médica e estímulo ao uso de medicação como recurso conhecido para o alívio de males da sociedade contemporânea, parece existir uma aceitação generalizada que aprova o tratamento medicamentoso como conhecido para a resolução de problemas, tal qual a depressão”.

 

No ambiente de trabalho, a pessoa diagnosticada com depressão pode acabar se atrasando ou faltando mais, não consegue produzir e não se sente competente para realizar determinadas atividades. Em alguns casos, os trabalhadores são afastados de seu exercício profissional. Na pesquisa feita por Cavalheiro, 91% dos entrevistados se afastaram por um período longo, de 30 a 120 dias. Uma pessoa pode ficar afastada por mais ou menos tempo, dependendo do agravamento do quadro depressivo e das dificuldades em se recuperar. Alguns não querem voltar a trabalhar e estendem esse período até poderem se aposentar. De acordo com o estudo, “o sistema vigente parece assegurar o afastamento do trabalhador, que já não desempenha adequadamente suas funções, como meio de solucionar o problema”.

 

A legislação brasileira, por sua vez, não considera a depressão especificamente como doença profissional ou do trabalho. Pelo decreto 3048, de maio de 1999, que lista os transtornos mentais e comportamentais, só classifica doença ocupacional quando os episódios depressivos estiverem associados com exposição a produtos químicos (Veja a legislação aqui).

 

Cavalheiro atenta para a falta de conhecimento da população sobre a depressão e o preconceito gerado em torno da doença. “Parece que a sociedade atual encontra-se diante de um paradoxo, tudo pode ser considerado depressão – tristeza, cansaço, falta de motivação ou de ânimo, estresse – que justifique a necessidade de tomar medicação para diminuir ou cessar o sintoma. Por outro lado, nada é depressão, ou seja, nada é verdadeiro ou suficiente para que justifique a necessidade de parar, de não trabalhar”. O depoimento de uma das entrevistadas, diagnosticada com transtorno depressivo recorrente e ansiedade generalizada, exemplifica essa situação. “Acho que as pessoas não entendem o que se passa na depressão, não sei se as pessoas olham pra mim e acham que está tudo bem, mas às vezes você chora a noite toda e pensa em se matar e depois, no outro dia, você percebe que não é tão ruim assim, que não é nada daquilo, toma um banho e continua a vida, a depressão é assim, as pessoas não entendem”, conta uma professora da UFSC, à época com 45 anos. Conforme citado na pesquisa, esse preconceito acaba afirmando o estereótipo da pessoa que não trabalha. O não trabalhar faz com que se fique à mercê da sociedade e dificulta inclusive o retorno ao ambiente de trabalho.

Última atualização em Qua, 16 de Novembro de 2011 12:34
 

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Comentários  

 
+12 #3 DEPRESAOpatricia marcon 10-07-2012 18:00
Foi muito bom ter lido esse artigo, pode esclarecer dúvidas que eu tinha, Obrigada!
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+25 #2 Empregado afastado por auxílio doença( depressão) por mais de 6 meses tem direito a estabilida de no emprego.?Silvana P. Mendonça 03-07-2012 18:35
Tenho depressão há mais de 10 anos, chegou a um grau que sinto dor nos ossos, quando fico estressada (nervosa) minha face adormece e a ansiedade toma conta de mim. Me irrito com muita facilidade , não posso ouvir barulhos, enjoo dos lugares onde trabalho, onde moro e até mesmo das pessoas. Depois de anos comecei a fazer o tratamento de depressão, mas continuo com os sintomas, não posso nem ouvir em voltar para o meu trabalho. Não tenho vontade de ver nem falar com ninguém. Desejo saber se eu voltar eu terei estabilida de no meu trabalho ou eu posso ser mandada embora sem justa causa?
Tenho apenas 1 ano na empresa, e estou afastada a 5 meses e a minha médica não me deu alta disse que tenho que continuar a fazer o tratamento . Por gentileza tire minhas duvidas.
Grata
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+23 #1 Depressãoalexandre 01-07-2012 21:23
Estou com um quadro depressivo grave e estou afastado do emprego a 100 dias estou para retornar, tenho garantia de emprego?
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